domingo, 22 de outubro de 2017

Desconheço - Nicolas Santos

Troco-te por qualquer pensamento evasivo e tudo permanece igual. Quem vive, sabe bem o que não faz, quem não faz. Só se vai, quem nada fica. Seriedade não passa da porta, pegue sua máscara infeliz e tape o rosto. Eu descubro, me aprofundo, me corto. Agora diga, quem é cópia? Há quem prefira o cabresto. Eu não, disso já me livrei. Ninguém me manda, ninguém te manda, você se manda, não volta. Tropeça-te, nas minhas pernas. Olha só, não olha. Eu acabo de começar o dia, esses não terminam, jamais. Minha cabeça cai, não medico-me. Febre semi-crônica, combato a tontura habitual, mantendo-me em pé. Não me assemelho com os demais, despretensão ou pretensão, demais, demais. Um fio do meu próprio cabelo, preso em minha mão, levei-o até a janela e joguei. É isso, nos livramos com maior facilidade do que é nosso. Não tema, creia no que bem entende, só entenda. A fraternidade dos corpos estendidos é sublime, salve-se quem puder. Eu sigo o incerto. Já conheci gente demais, desconheci na mesma medida.

domingo, 15 de outubro de 2017

Artéria - Nicolas Santos

Nada supera o desfavor da inundação que me causa, o presente não é apenas uma sequência de eventos, desencoraja-me este sol que sorri. Corto meu pescoço, os pulsos e as pernas, este ventilador não locomove-se e a distância não permite que eu faça ocorrer algo, nada ocorrerá. Despeço-me aos poucos. Alegaríamos certeza e assim poderiam nos considerar desafinados quanto a realidade variável, ora, não sou destes que procuram, encontre-me. Sobrevivemos a natureza, matando-a, como sobreviveremos? Solo é mais que mãe, eu avanço no sentido contrário, ramifico a desavença. Perto, muito perto de ausentar-me, francamente. Agora o vento nos inventa, eu redento o mar, o amar não, amor não. Convicção nada faz. Nada melhor que o tempo para matar o tempo, os opositores são mais fiéis que os dizem lado a lado, calma sempre é melhor que aquilo. Nem todo homem é um artista mas todo artista é apenas um homem.

domingo, 8 de outubro de 2017

Especulação - Nicolas Santos

O vento perfura meus pulmões, acabo quando tudo acaba, nasço sem coração e o ganho a cada dia. Já diria Bukowski : “Don’t try.”
Somos o acordo filosófico do fim de noite. De turno em turno, solidão é deveras influente em minha vida, é para quem escrevo. Sabemos bem onde pisamos, não são pescoços sobre vossos pés. Respire, buscam-te para conselhos e isso me estranha, és como eu, uma criança. Queres criar o que não se cria aqui, mas retifico, aqui não. Seguem nesta sujeira e se quer imaginam o quão sujo é tudo isso que os rodeia. Pobres culpados, inocência é um ponto sem destaque, sem nexo.
Sinto que não há tanto tempo, como deveria haver, na cabeça de alguns. Estes são cópias fajutas e mal arquitetadas, dispostos a matar à arte.
A febre passa, a angustia também. Ansiedade baixa e a estrada chega ao fim, passagem por paisagem. Quanto ao tempo, nada a declarar. Dão-se pelos demais. Insones, desprovidos do que lhes deveria ser essencial. Porém quem sou para dizer a alguém o que é essencial? Ninguém, nada, mais um insone. As nuvens desaparecem e o que emerge faz-se provável aos que mantem-se calmos, o desagrado é desesperador, tal seria nossa vida e morte. Mantém-se válido o desabrigo da rotina, pena que essa adoece-me.

domingo, 1 de outubro de 2017

Demons - Nicolas Santos

Gostaria de poder dizer alguma palavra ou peneirar o sol, atravessando qualquer rua em qualquer lugar. Mantenho os dois pés juntos e tristes. Limpo os olhos, fraciono a somatização e mostro as marcas do meu braço à quem se interessa, de ser por ser, em diante, para trás só tua boca. Quebro os laços, me corto com os cacos. Se não tivermos a chance de ser quem somos, em nada irá adiantar, ser quem somos. Não tenho nada aqui, para lhe dar, não tenho nada aqui ou acolá. Palavras sábias são febris, os sábios, gelados. Coração não palpita, palpite. Deixa-me aqui, quem sabe eu consiga, quero chorar. Sinceridade à flor mais feia do jardim, na minha visão, a mais colorida dos universos. Não expulso meus demônios, minhas únicas companhias.

domingo, 24 de setembro de 2017

O poeta é um aproveitador - Nicolas Santos

Então eu fixo o olhar em qualquer pedaço de parede, chão, qualquer coisa e mergulho nas minhas profundezas para resgatar o irresgatável.
Primeiro, raio, depois, trovão.
Eu acredito que estar e ter um tempo para si é devido, mas afogar-se em teu próprio mar, quando podes recorrer aos demais, é egoísmo. Ninguém quer te mudar, ninguém pode te mudar, nisso tens razão, mas a disposição pode ser um fator para que novos olhares sejam efetuados. Saudade de verdade faz rangerem-se os dentes, minha gengiva sangra, há de se querer bem o que se quer, fora disto, é só casualidade caótica. Terra em estado líquido, pureza da poça, reflexo se vê. Acaso o ponto for molhar-se, sou favorável, arquiteto o imprevisto, o diagnóstico. O charme da solidão é só dor, dor no coração. Me chame para conversar, cure essa minha tristeza de fevereiro. A vida, é, só isto e ponto. Insistem em fazer parte, logo esquecem, porém isso não os basta, tornam-se unha encravada, maldição híbrida e o inferno à quatro. Um peso sai, outro se põe, desconheço o descanso, apenas o descaso. Façamos assim, não lide, lute e mantenha o pés na terra. Meus olhos cansados despedem-se de tudo que atrasa a vontade, o inexorável desejo não se decompõe. Fitam, até pode ser, nada dizem, prazer.
O poeta é um aproveitador. Fale de lado, como se quisesse fugir ou encantar, toda sedução deste mundo em seus traços e laços. Olha, guria, deixe-me ser quem sou.

domingo, 10 de setembro de 2017

Vinte e poucos anos - Nicolas Santos

A angústia redentora combate o polo que equivoca futuras provocações, aprende quem dispõe-se, lanço de antemão certas condições, logo, mudo. Não tenho falado com ninguém, não sou procurado, requisitado para isto. Os incrédulos noticiam com toda sua voracidade, atingem à quem? Nasce em cada rua, uma história que logo morre no cruzamento, acimentado. Sei lá, esquece. Conheço hoje, amanhã não sei quem serás, nem quem serei. Conheço hoje e essa unanimidade desastrosa da relação convida ao fracasso total. Supera-te e não esperas nada de mim, não fico por muito tempo, ouça o que o vento é impedido de dizer, silêncio. Antes era novidade, antes. Então a juventude é só isso, tudo isto e menos. Tu é só isso, desprezível, eu, pior. Agora e de novo, angustio-me só por vislumbrar estas possibilidades que por enquanto, encontram-se apenas no mundo inteligível, tanto faz. Hoje ressoam manchas neste céu que tem acostumado-se a nos rasgar de ponta a ponta, eu ainda durmo, preciso de café e algo mais, só tem café. Invento na hora, palavra, medo ou disposição, depende do momento e de outros quinhentos, a esquerda tudo que posso ver, além da toxoplasmose. Eu tomo veneno no almoço.

domingo, 3 de setembro de 2017

Para quem não tem como - Nicolas Santos

Fica, faz minha febre passar, estes teus olhos semi-francos. Verdes, castanhos, tanto faz, olho mais sua boca do que meus pés. A indecência libertará a todos nós. Atirar na própria orelha, pular do décimo oitavo andar, afogar-se na pia, desatar o banco com a corda no pescoço, cortar-se, apaixonar-se. Alego inocência por toda a culpa que carrego e divago, meu cansaço é físico, sentimental. Os homens se desmoronam na pureza do egoísmo. Não minta, isso é desnecessário, isso é desnecessário, reconheço apenas o que desejo e odeio diversos, errado ou não, costumo odiar. Buracos da alma. Não me acorde, farei o mesmo por ti. Infecção é não concretizar o mais simples que nos pareça, disse que viria. Não há de quê, não veio, disse o que quis e eu sem nada, por ai. Deixe-me bem com essa tristeza, essa maldita e atormentadora, tristeza. O que seria o amor ? Apoiar-se de forma cega até o desperte para tudo, tudo que se parecia ignorar em troca de favores emocionais? Poderia aqui, fazer disso mais um motivo, não saberia bem qual, francamente, quero escrever, quero dormir, quero muito dormir. Preciso que alguém quebre meu coração.